Entrevista a Ana Liceu

Ana Liceu é autora de Amor para recomeçar e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

Confira nossa programação.


Ana LiceuComo se descobriu escritora?  

Eu sempre fui apaixonada pela literatura, foi o que me motivou a escrever. Em um dia eu acordei e pensei “vou escrever um livro”, assim, sem mais nem menos, e o fiz. Terminar aquele livro foi a constatação de que eu era capaz. Acho que a partir desse momento eu pude me ver como escritora.  

Qual a sua principal inspiração?

O amor. Amor pela vida, pelas pessoas, pelos momentos. Mas principalmente o amor pelo que faço, pelas vidas que construo com palavras. Quando eu tenho um papel e uma caneta na mão, sempre tenho, também, o que escrever: nada, tudo, qualquer coisa é alguma coisa.  

Sua profissão ou o lugar de onde veio tiveram alguma influência em seus temas e em seu modo de escrever?

Absolutamente. Eu acredito que o livro é o espelho de seu autor. Por mais que tentemos não influenciar a obra com nossas ideias, sempre vão haver resquícios de nós. Provavelmente meus livros são minhas experiências pessoais romantizadas, já que para mim escrever é uma forma de lidar com as minhas emoções.

Quais as suas principais referências literárias?

Eu tenho grande apreço pelo brilhante Machado de Assis, e quem me dera, algum dia, conseguir construir uma marca literária que seja uma pontinha da dele. Para escrever “Amor para recomeçar” me inspirei em tragédias, Shakespeare e, claro, na atualidade. Por falar em romance, aliás, como não citar Nicholas Sparks e John Green?  

Qual o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Eu me apaixonei por “A cidade do sol”, do Khaleed Hosseini. É um romance sobre duas mulheres afegãs, no qual entendemos um pouco sobre a posição da mulher na sociedade islâmica e, claro, num país em meio à guerra de facções. Apesar do tom trágico, é um livro que tem momentos de devaneio, riso e reflexão, do início ao fim. Para mim, o mais importante foi como tinha tudo pra ser mais uma tragédia e acabou sendo uma prova de que o mais importante no mundo, no amor e na guerra é a esperança de que dias melhores virão.

E foi um pouco do que eu tentei passar no meu livro. É muito simples ver a vida apenas de uma perspectiva: ou é tudo feliz, ou é tudo triste; não é assim, trata-se das duas coisas, é uma balança, cabe a nós pesar cada parte e estabelecer nosso equilíbrio. Em tempos difíceis, nos lembrarmos de que sempre há amor para recomeçar, nem que seja amor próprio.  

Como funciona o seu processo criativo, como cria seus personagens e histórias?

Eu me sento com meu computador e uma xícara fumegante de café. É difícil dizer, às vezes se passam minutos, às vezes horas, até uma ideia se formar na minha mente. Quando acontece, é só começar a digitar e prosseguir digitando até onde tiver de ser.

Em que se tornar uma contadora de histórias modificou a sua vida?

A minha vida não era completa. Quando eu comecei a utilizar a literatura e a escrita como válvula de escape e instrumento de expressão pessoal, eu passei a me sentir mais completa e principalmente mais infinita. Isso estará comigo em todos os momentos, é parte de mim.  

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinha todos os problemas surgidos durante o processo?

É uma coisa que eu tenho que fazer sozinha, é a minha maneira de lidar comigo mesma, autoconhecimento.

 O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso na literatura, tanto de novos leitores quanto de novos escritores?

Facilita, sem sombra de dúvida. A literatura é mais difundida, temos inúmeros grupos de leitores discutindo livros e também de escritores. Todos compartilham ideias o tempo todo e isso é bom. E o escritor pode publicar na plataforma digital, o que não deixa de ser mais uma forma de difundir seu trabalho. É claro que há toda uma discussão sobre livros impressos e digitais, mas eu vejo como mais uma oportunidade de crescer no meio.

Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

O brasileiro não tem o hábito da leitura, isso é um fato. Então, o mercado editorial é muito fechado, além de caro. Creio que a maior dificuldade é primeiro publicar e então vender, que é um verdadeiro desafio. Lembro de uma matéria que vi há uns anos, do The New York Times, que dizia que “ser escritor no Brasil é a mais patética das profissões”. Infelizmente, é verdade, ser um escritor bem-sucedido aqui é como ganhar na loteria, você sabe que pode acontecer, mas quais são as chances?

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Prudência. Às vezes estamos tão afoitos para publicar que não encontramos o melhor contrato, a melhor editora. Devemos nos lembrar que tudo tem que ser feito com calma. E investimento, claro. Quanto mais você investir na sua obra, mais chances ela terá de obter sucesso.  

Quais os planos para o futuro?

Continuar escrevendo. Apesar de todos os empecilhos, essa é umas das profissões mais belas que existem. Se não temos o hábito da leitura, vamos cria-lo e difundi-lo nas redes. Se o mercado é escasso, vamos exigir de nosso governo parcerias que incentivem seu desenvolvimento. E vamos continuar publicando e produzindo obras que mostrem para o mundo que, além de bom futebol, aqui se faz também uma ótima literatura.