Romildo Guerrante

Passageiro da Memória

 

Por Frodo Oliveira.

 

Romildo Guerrante, fluminense de Cambuci,  jornalista há mais de 40 anos, tendo começado no Jornal do Brasil em 1971, quando ainda cursava jornalismo na primeira turma de Comunicação da Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Desistiu da carreira no Banco do Brasil por causa do jornalismo, que durante alguns anos acumulou com as tarefas de repórter. Depois de quase 20 anos no JB, tendo começado como estagiário, chegou a editor no final dos anos 70, atuando na reportagem geral, no copidesque e como redator das editorias de País e Economia e Política, além da primeira página.

Múltiplas atividades se seguiram à saída do JB: consultoria em media trainning, assessoria de imprensa, produção de textos e publicações empresariais. Aposentado, prosseguiu trabalhando como editor de publicações empresariais e redator de material corporativo. Tem contos, poesias e artigos publicados em diversas mídias. É editor da revista ambientalista Bio, colaborador habitual da revista Plural e da revista eletrônica Balaio de Notícias. Este ano decidiu tirar seu livro “Passageiro da Memória” da gaveta e publicá-lo pela Editora Multifoco.

EM: Como Romildo Guerrante se descobriu escritor?

RG: Enquanto trabalhei como repórter de jornal no Rio de Janeiro, seguindo um padrão de texto, de ordenamento, de restrições estilísticas, não me aventurei a escrever nada que não se enquadrasse nessa camisa de força. Quando, deixando a reportagem, me tornei redator, abriram-se janelas maiores de liberdade na construção dos textos. E, como imaginação não faltava, comecei a botar no papel o que via, o que intuía e o que pretendia que fosse verdade. Esse afloramento me levou à poesia também. Contribuí com algumas publicações, participei de concursos, fui editado em edições compartilhadas. Mas a poesia não era exatamente a minha praia. Comecei a escrever contos, pensei em escrever um romance, deu preguiça, resolvi buscar na memória o alimento do primeiro livro. Veio fácil. Principalmente depois que me senti livre para mentir, associando a criação mentirosa com os fragmentos da memória dispersos por aí.

EM: Nesses tempos de redes sociais e de notícias instantâneas, qual a sua principal fonte de inspiração?

RG: Minha inspiração maior para escrever são os seres humanos com os quais cruzo na rua, com quem convivo nos bares, nas festas, nos shows. Observo muito as pessoas. Isto vem dos muitos anos de trabalho como jornalista, do prestar atenção para ver onde está a verdade no meio de tanta história cheia de contradições que por força da profissão sou obrigado a ouvir. Me apaixono por algumas pessoas, tenho nojo de outras, carinho por um sem número.

EM: Então a sua profissão e o lugar de onde veio tiveram influência em seus temas e em seu modo de fazer literatura?

RG: Minha infância no interior é responsável por boa parte desse primeiro livro. A profissão de repórter também. Juntaram-se essas duas coisas para inspirar as histórias e moldar a narrativa.

EM: O que o leitor Romildo Guerrante gosta de ler? Quais as suas principais referências literárias?

RG: Durante muitos anos fui obrigado a ler e a fazer trabalhos sobre muitas obras literárias. Isso não produziu fascínio pela literatura, antes, tomei repugnância de alguns autores por causa da obrigação escolar. Machado foi um deles. Até que, muitos anos depois, li, durante uma viagem, “O Alienista”. Me encantei. Mas já tinha sido contaminado por Humberto de Campos, papai tinha a coleção completa desse maranhense fantástico, um estilista de quem pouco se fala. Às vezes me encanto com um escritor, outras vezes resisto. Garcia Marquez me encheu de prazer com “Cem Anos de Solidão”. Saramago me aborreceu com “Jangada de Pedra”. Ultimamente ando lendo muito mais poesia, embora tenha contos de Machado de Assis na cabeceira. Mas Quintana, Adelia Prado, Manoel de Barros, Cora Coralina e tantos outros bugres da nacionalidade enchem a minha alma de alegria. Não sei como viveria sem eles.

EM: E o livro mais marcante que já leu, qual seria? E por qual razão o considera tão importante?

RG: Dois livros que li mais ou menos na mesma ocasião me sacudiram, embora sejam de épocas diferentes. “Admirável Mundo Novo”, de Huxley, e “1984”, de Orwell, tiveram peso grande na minha formação. Mas recomendaria a todo mundo que lesse, além desses dois, também a “História da Riqueza do Homem”, de Leo Huberman, e “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. Acho que são obras fundamentais à alma, embora só uma não seja de ficção.

EM: Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida?

RG: Eu já contava histórias nos botequins. Meus amigos sabem disso e eles me estimularam a colocá-las no papel. O livro é apenas a sacramentação de uma rotina de inventividade.

EM: Como funciona o seu processo criativo, como cria seus personagens e histórias?

RG: Crio personagens inspirando-me nas pessoas que estão à minha volta. Depois distorço completamente o perfil. Recrio. As histórias eu as misturo umas com as outras, faço fusões, trato de casar o que jamais esteve junto, mantendo a plausibilidade da narrativa, ou seu absurdo total.

EM: Isso engloba conversar com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou você prefere resolver sozinho todos os problemas surgidos durante o processo?

RG: Discuto com pouquíssimas pessoas. O “Passageiro da Memória”, por exemplo, num determinado momento  empacou e achei que não ia sair. Conversando com um poeta meu amigo, ele sem querer me forneceu a saída. E o novelo da narrativa encadeou-se de forma implacável. Me entusiasmei com o andamento da coisa e o livro acabou saindo antes que pudesse imaginar.

EM: Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

RG: Há mais facilidades hoje para se tornar escritor. As edições digitais estão apontando para isso. O que dói é perceber que se vende livro em quantidades imensas, mas que o índice de leitura é baixo. Compra-se livro para enfeitar estante, para carregar debaixo do braço, para ostentar cultura. Lê-se muito pouco. Infelizmente. Sabendo disso, torna-se um pouco desanimadora a tarefa de escrever.

EM: Quais os projetos para o futuro do escritor Romildo Guerrante?

RG: Há poucos dias, uma sobrinha querida me mandou um e-mail dizendo que tinha lido meu livro numa noite só, numa enfiada, que tinha adorado as histórias e que eu não demorasse a fazer “uma continuação”. Acho que a ideia é essa. Contar mais histórias. Dizem os meus amigos que eu sou um poço sem fundo de histórias que vão sendo puxadas e das quais não se enxerga o fim.

 

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