Entrevista a Carolina Montone

Carolina Montone é autora de Pão com poesia e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

Confira nossa programação.


Carolina MontoneComo se descobriu escritora?

Escrever é um acontecimento natural na minha caminhada. Ócio,  oráculo, ofício. Uma maneira de sentir e também brincar com a vida, na medida em que posso reinventá-la.

Desde muito menina escrevo. São muitos caderninhos de anotações para cada década, cada fase. Quando bem menina colecionava papéis de carta decorados e lembro que, enquanto as outras garotas satisfaziam em juntar os papéis, eu gostava de escrever neles.

Muito depois entendi que a literatura vem no pacote da minha necessidade de expressão e expansão que me levou aos caminhos da arte e do Yôga. Sou atriz e também me formei professora de Yôga.

Escolhi a faculdade de Jornalismo aos 20 anos porque considerei que estaria mais próxima da possibilidade de contar histórias. De escrever. Atuei como repórter e editora em diversos veículos tanto impressos como audiovisuais e me diverti sempre, mas escrever prevaleceu como minha natureza .

Escrevi bastante para jornais e revistas até me aventurar na literatura. Comecei cautelosa e tímida, como ainda estou. Participei de coletâneas diversas, principalmente de poesia.

Meu primeiro livro solo, o Marias e Josés, é uma coletânea de contos lançada em honrosa parceria com o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo em 2009. Este projeto me deu muita força e inspiração para perseverar e acreditar que estava no caminho certo.

Fui me estabelecendo como escritora, digamos assim. Ganhei um prêmio na Academia Campinense de Letras da minha cidade natal Campinas pelo poema Canção de ninar. Escrevi o espetáculo de teatro Com Medo do Medo para a Biblioteca de São Paulo – Parque da Juventude. Os projetos foram acontecendo, mas até hoje fico de bochechas vermelhas para dizer “sou escritora”. É mais fácil reconhecer que simplesmente amo escrever .

Gosto muito de uma frase da Clarice Lispector quanto à indagação: “Por que você escreve?’ Cuja resposta genial dela mesma foi “por que você bebe água?”.

Escrever é um instinto que cresceu em mim a medida que eu lia mais e vivia mais. E ainda cresce. É vital para minha sobrevivência. Escrevo caminhando, rezando, amando. As frases vão se espalhando na minha mente e ficam lá a minha espera, apenas aguardando para serem a história da vez.

Não posso deixar de comentar que escrever para crianças foi uma das experiências mais poéticas que vivi. Contei histórias para crianças em determinada época da vida. Dessas vivências, e também das “estórias” que meu filho Cauã me pedia para inventar antes de dormir, surgiu o desejo de falar com a criança . Eu sempre fui muito moleca também e dizem por aí que sou uma criança ainda. Eu gosto, confesso. Porque brincar é essencial.

Qual a sua principal inspiração?

Minha principal inspiração é a vida. Viver é escrever uma história, querendo ou não. Sou interessada por pessoas. Pelo universo dos seres: o meu e o do meu semelhante. Tenho profundo interesse pelo comportamento humano, pelo amor que sobrevive no vão das pedras, como a flor que nem é regada. Sou uma romântica. Mea culpa! E apesar de crônicas do cotidiano propiciarem um estilo narrativo que me encanta, o amor romântico permeia praticamente toda minha produção literária. Falar de amar é meu vício, de amar sem parâmetro, de reinventar o amor que os homens do nosso tempo parecem estar dispostos a abdicar por medo, simplesmente porque viramos “civilizações maquiadas de alegria”. O amor tem sua dose de melancolia….

Quais as suas principais referências literárias?

São muitas, não tenho preconceitos. Acho que se a literatura de autoajuda ajuda, por que desvaloriza-lá, por exemplo, como segmento mercadológico ? Há autores maravilhosos nesses grupo, desde Osho até Paulo Coelho e Daniel Goleman

Detesto rótulos. Sei que o mercado às vezes precisa deles, mas cárceres taxativos como “literatura feminina” ou “literatura erótica” me entediam: a dualidade está em tudo. O feminino e o erótico podem estar num livro de grande apelo aos homens .

Marta Medeiros, por exemplo, é uma delícia. Fabrício Carpintejar é outra. Xico Sá é da mesma forma. Isso porque brincam e porque são despretensiosos como a minhas obras são também. Falo aqui de alguns contemporâneos: amo a perigosa entrega de Clarice Lispector. Ela não faz média com o leitor, ela se esgarça. E continue a página quem tem coragem de se esgarçar também .

Se for para falar dos clássicos , gosto de Sartre, por exemplo, e de Simone também, apesar de Tete à Tete, livro que revelou os bastidores da história dos dois, ter me entristecido por encontrar autores que sofriam mais do que suas ideias vanguardistas sugeriam. Simone era uma mulher repleta de ciúmes. Tristão e Isolda comecei a ler agora.

Grandes poetas me influenciaram muito. Quintana, Manoel de Barros, Neruda, Cora Coralina, Fernando Pessoa, Hilda e todos os outros brincantes, que tantas vezes fizeram meu coração sorrir. Certos poemas são como pátrias. Nós os escolhemos e eles nos escolhem.

Há autores educadores dos quais gosto muito. Dentre eles, Ruben Alves é de uma simplicidade tão sofisticada que desconcerta. Aprecio e aprendo .

São muitas as referências. Tenho gostado de diversos autores contemporâneos. Creio que estamos perdendo o medo de ousar e também cruzando linhas separatistas de gêneros. A poesia mesmo, por exemplo, está em tudo. Acabo de ler o livro Amor segundo Buenos Aires, que me encantou bastante.

São muitos os livros e autores referência; não caberiam neste breve bate-papo informal.

Qual o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Sinceramente todos os livros que leio são marcantes. Teve um, lido há uns dois anos, Casa das estrelas, com frases de crianças que me tiram o fôlego de emoção.

O pequeno príncipe é um livro emblemático e meio clichê, mas confesso que fiz questão de apresentá-lo ao meu filho bem cedo porque acho a história de uma sensibilidade ímpar para valorizar o sentimento, numa época em que sentir parece estar virando um demérito. Muitas pessoas hoje estão cada vez mais conformadas em serem máquinas de fazer.

Os livros relacionados às filosofias do yoga e da meditação me marcam muito também. Thich Nhat Hanh, mestre zen budista, é um senhorzinho que produziu livros incríveis. Deliciosos. Jocosos. Simples. É a simplicidade que me encanta. O Yoga Surtra de Patanjali parece um quebra cabeça num primeiro olhar, mas tem preciosidades para reflexão que podem fazer a diferença na vida de uma pessoa. Podem transformar. Se a gente lê um livro e nada se transforma em nós, nada novo é despertado ou nada antigo é atiçado, então fomos apenas voyeurs do texto. Não houve a troca que é literatura. Literatura pra mim não é título, é troca, é mais dupla.

Como funciona o seu processo criativo, como cria seus personagens e histórias? Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinha todos os problemas surgidos durante o processo?

Minha criação é instintiva, inquietante e ininterrupta. Sou curiosa. Gosto de imaginar também. Anoto palavras que são símbolos pra mim. Anoto imagens em uma palavra, em uma frase, em uma foto. Às vezes uma palavra chave fica ali para me lembrar uma história inteira que quer nascer. Como já disse, as pessoas me chamam muito a atenção. Sou observadora por natureza, me divirto sem julgar, me divirto com a diferença. Quando observo é nesse viés da graça da diferença. Tanto que escrevi um livro sobre o prazer da diferença, Um amigo diferente, cujo protagonista era um E.T. jogador de futebol .

É um processo bastante individual e solitário no começo. Não troco ideias com ninguém antes nem durante o processo: a gestação é minha. Depois da criação essencial, na fase de burilar e melhorar já peço opiniões para pessoas queridas as quais admiro e têm condições de fazer críticas construtivas.

Pão com poesia, por exemplo, começou a ser escrito quando eu nasci, acho, porque me remete à herança da comida afetiva. Do ritual de alimentar que vivi na minhas famílias italiana e baiana. O pão era algo muito emblemático nas duas. Poético. Meu avô dizia: “praça é o pão da alma”; “as bocas são irmãs”, “em casa que falta pão todo mundo grita e ninguém tem razão”. Na minha família baiana a conquista do pão era a vitória, era prova de ser homem de bem. Meu avô baiano dividia uma goiabada para que 12 filhos comessem com pão. Eu sempre tive esta sensação de que tudo é alimento, inclusive a poesia, que é um alimento e tanto. E daí nasceu a ideia do livro: quando percebi o quanto as pessoas estão interessadas em alimentos, em melhorar a alimentação. Há hoje uma valorização deste aspecto e quis fazer poesia gastronômica, sabe? Quis que um versinho fosse um docinho do dia. Que uma palavra fosse fruta. Simples ideias assim.

Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida?

Ser contadora de histórias é um privilégio e uma responsabilidade. É uma loucura. É para quem não tem certos pudores. Quando elegemos uma forma de contar algo estamos excluindo outras; isso nos desenha e vai contando nossa própria história neste mundo. Você pode falar de dor e pode falar de amor.

Pessoalmente, sinto uma grande felicidade quando consigo contar uma história. Mesmo que alguns nem a considerem boa, houve um nascimento, uma história nasceu, um jeito de contar o conto saiu da sombra. Ganhou luz, virou leitura. Pode até inspirar outras histórias melhores.

Nem sempre é divertido. Às vezes, a gente sofre para escrever. Não guardo esta imagen estereotipada dos existencialistas, que morriam cedo como fórmula para ser escritor. Tudo oscila. Você pode estar feliz, ser leve e ter profunda sintonia com narrativas mais intensas e até pesadas. Tudo compõe com tudo como num grande mosaico. Muitas separações são do ego. Seja como for, se nem sempre é divertido parir uma história, por outras vezes é muito divertido porque é recriar. Tanto ler como escrever são duas possibilidades maravilhosas de viver mais.

O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso na literatura, tanto de novos leitores quanto de novos escritores?

A Internet, como quase tudo na vida, é dúbio. Pode ser um facilitador e pode ser um elemento de manipulação. Prefiro pensar que facilita a vida do escritor porque escritor precisa de leitor e nada mais acessível hoje em dia do que a Internet para formar as primeiras pontes com os leitores.

É claro que tem muita coisa ruim por aí, além do fato de muitas pessoas hoje em dia se autoproclamarem escritores e donos da verdade, quando na realidade estão apenas se expressando, o que é válido sempre. Não devemos, porém, confundir “alhos com bugalhos”; na outra ponta há também autores ótimos que surgiram e continuaram na internet.

Os blogs abriram muitos caminhos; eu mesma tive alguns blogs. Acho a venda de livros pela Internet muito interessante também para o autor. Em parcerias com editoras como a Multifoco, podemos apresentar nosso trabalho para todo o país de forma elegante e segura.

Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil? Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Ser escritor no Brasil é um ato de bravura. De resistência. Falta incentivo governamental. Falta leitor. Falta tudo quando o que sobra é idealismo de escritores e editores que não se rendem a um mercado cada vez mais tendencioso e atrelado a modismos.

Ser escritor é difícil em qualquer lugar porque a matéria prima deste trabalho é a emoção, as incongruências e os paradoxos da vida. O escritor é, mais ou menos, aquele que lambe a ferida, e em um país que não valoriza os escritores, isso pode ser muito pior  A maioria de nós luta incansavelmente, como Quixote, para vencer um mercado hermético e desacreditado. A maioria dos escritores e editores acaba desempenhando atividades paralelas para garantir o sustento. Tudo isso é triste porque sem leitura não há educação e cultura e sem escritor não há a história. A matemática dos que cortam investimentos até para livros didáticos no país é burra porque não considera que a única coisa multiplicada com a falta de interesse na literatura nacional é a ignorância de uma nação.

Com tudo isso posto , a dica para quem deseja ser escritor é: escreva. Nem pense para que ou por que e muito menos onde será publicado ou veiculado. Uma hora acontece. Apenas escreva, refine seu estilo, analise-o. E leia. Leia tudo sem julgar. Vá estabelecendo naturalmente preferências. E nunca, nunca acredite que escrever não é trabalho ou profissão, que você é um vagabundo(a) porque, no mínimo, você é um sonhador(a). Então sonhe sempre!!!

A vida é sonho e os sonhos sonhos são. Shakespeare.

Quais os planos para o futuro?

Não sou de pensar muito no futuro, vivo intensamente o hoje. É claro, porém, que sempre há alguns desejos que já se fizeram presentes e outros que ainda não estão realizados. Um deles é escrever um romance. E outro é publicar um livro já escrito de meditação para crianças. Uma ficção que brinca com a percepção e os poderes mentais.