Entrevista a Célio Valim

Célio Valim é autor de Cibernética e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

Confira nossa programação.


Célio ValimComo se descobriu escritor?

Desde pequeno que eu tenho o dom de escrever. Aos 14 anos já escrevia o jornal da escola em que eu estudava.

No ginásio, houve um acontecimento inusitado: o nome da escola era Ginásio Municipal Monteiro Lobato e a professora de português pediu que os alunos fizessem um trabalho sobre as obras de Monteiro Lobato. O referido trabalho era para ler um livro do autor e fazer a apresentação na sala de aula em voz alta, e cada aluno deveria escolher um livro diferente do patrono da escola (Monteiro Lobato).

Acontece que eu andei faltando aula e quando soube do trabalho só restava um livro, Reinações de Narizinho. O livro que ninguém quis pela quantidade de páginas. Como o prazo para entregar o trabalho era curto eu resolvi fazer o trabalho sem ler o livro e, mesmo assim, todos aplaudiram. Menos a professora, que resolveu fazer-me algumas perguntas: quem era Narizinho? Quem era o Visconde de Sabugosa? E assim, ela tirou a conclusão que eu não li o livro. Levei uma vaia dos  alunos e tive que fazer outro trabalho que não foi tão bom quanto o primeiro. Isso me serviu de lição.

Qual a sua principal inspiração?

Qualquer coisa pode me servir de inspiração. O meu primeiro livro publicado foi Depois da bomba. Foi inspirado pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial (a bomba de Hiroshima). O segundo livro, A ordem dos cavaleiros reais, também foi inspirado pela Segunda Guerra. Cibernética, o meu terceiro livro, é envolvido, embora à distância, por meio dos noticiários, tenho uma perspectiva da cidade que acaba me inspirando, pois vivi e estou vivendo a maior parte da minha vida, embora não tenha nascido no Rio de Janeiro.

Sua profissão ou o lugar de onde veio tiveram alguma influência em seus temas e em seu modo de escrever?

Minha profissão, não. Sou advogado atuante, já fui professor, fiz jornalismo e não vejo nenhuma influência, já que escrevo desde criança. Sobre questão do lugar, talvez o Rio de Janeiro tenha me inspirado a escrever o livro Cibernética, embora um dos personagens passe por Brasília e outro vá parar em um País imaginário.

Quais as suas principais referências literárias?

Gosto muito de ler, leio qualquer livro que me chame a atenção por qualquer motivo, mas posso escolher um escritor que me chamou mais atenção do que outros: Eça de Queiroz.

Qual o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Contos de Eça de Queiroz –  um dos contos despertou-me o desejo de fazer uma peça teatral.

Como funciona o seu processo criativo, como cria seus personagens e histórias?

A minha imaginação é muito fértil. Em qualquer lugar ou até mesmo dormindo eu tenho inspiração. O livro Depois da bomba, baseado na bomba atômica, eu sonhei quase todo. Os personagens surgem naturalmente. Pena que eu só consegui publicar o meu primeiro livro em 1990, já com 45 anos. O segundo, A ordem dos cavaleiros reais, só consegui sete anos depois, e mesmo assim foi por meio de uma publicação independente. Em 2015, a Editora Multifoco deu-me a satisfação de publicar o meu terceiro livro, Cibernética, e sou muito grato a toda a equipe.

Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida?

Na verdade, a minha vida como contador de histórias está começando agora (com 71 anos). O livro Cibernética deu-me mais alegria do que os outros. Graças à Editora Multifoco foi feita uma belíssima noite de autógrafo no bistrô da Editora, onde compareceram a minha família e amigos. Eu quase não dormi naquela noite de tão feliz que eu estava. Agora vamos para a Bienal. Espero vender todos os livros.

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinho todos os problemas surgidos durante o processo?

A maior parte eu resolvo sozinho, faço algumas pesquisas quando vou falar  de algum lugar desconhecido que eu preciso acrescentar na história. Aconteceu com o livro Cibernética, quando fui falar sobre o Copacabana Palace e também tive que ir a Brasília quando um dos personagens teimoso teve que ir lá.

O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso na literatura, tanto de novos leitores quanto de novos escritores?

O brasileiro, em geral, não tem o hábito da leitura. Em 2013 uma pesquisa feita pelo IBGE disse que o brasileiro gasta o seu maior tempo diante do computador e menor tempo lendo um livro do que qualquer outra atividade, mas nós escritores e leitores não devemos nos preocupar com isso, pois as livrarias continuam existindo, os leitores e os autores vão continuar. As bienais vão também continuar tendo o seu grande público.

Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

Começar qualquer projeto é muito difícil. E, no Brasil, se torna mais difícil ainda por falta de patrocínio. O empresário tem medo de investir. Temos um grande exemplo nos nossos atletas olímpicos que para competir precisam contar com parentes e, muitas vezes, trabalhar para ter algum dinheiro para seguir em frente. E como escritor, o exemplo sou eu mesmo, que desde criança procuro alguém para publicar o que eu escrevo e só fui encontrar agora com a Editora Multifoco.

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Escreva um livro e procure a Editora Multifoco, se o livro for bom, você encontrará apoio.

Quais os planos para o futuro?

Já estou com outro livro praticamente pronto (será o quarto), mas gostaria, ainda, de trabalhar mais um pouco nesse livro Cibernética. Tenho um projeto de criar um personagem que ficasse conhecido na mídia. Um personagem que todos conhecessem. Estou pensando num dos personagens do livro Cibernética. Talvez uma novela ou um seriado. E, por fim, gostaria de fazer a minha autobiografia. Tenho muita coisa pra contar. (Que Deus me ajude.)