Entrevista a Guilherme Solari

Guilherme Solari é autor de As crônicas do cascavel e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

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perfil--guilherme-solari  Como se descobriu escritor? 
Já faz uns quinze anos que escrevo ficção em momentos roubados da vida real. Eu comecei a me interessar por escrever adaptando cenas quando estudava teatro e acabei me tornando jornalista por causa da ficção. De dia, sou um jornalista escrevendo por trabalho como as coisas são. À noite, sou um escritor escrevendo por amor como as coisas poderiam ser.
Qual é a sua principal inspiração?
A grosso modo, tudo. Coisas corriqueiras no meu dia viram um personagem ou uma cena. Quando eu estou no período de pesquisa ou escrita de um livro, eu ligo o meu radar e vou anotando páginas e páginas em um caderninho abarrotado de ideias. Depois, quando chega o momento de escrever de fato, eu tento dar ordem a esse caos criando um texto coerente.
Quais são as suas principais referências literárias?
Gosto muito de ficção científica dos anos 1950 em diante, de autores como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, mas, tenho paixão pelo Cyberpunk, William Gibson e em especial o “Cyberpunk Psicodélico” de Philip K. Dick. Gosto muito também de autores clássicos como William Shakespeare, John Milton e Miguel de Cervantes. Outros nomes que me influenciam muito são Jorge Luis Borges e Neil Gaiman. Enfim, não que eu ache que escreva tão bem quanto qualquer um deles – quem me dera – mas as suas histórias estão sempre orbitando a minha cabeça.
Qual é o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?
Dom Quixote. O primeiro romance moderno e para mim, o melhor. É uma combinação incrível de humor, fantasia, aventura e discussão sobre o espírito humano. O meu livro, “As Crônicas do Cascavel”, é muito inspirado nessa premissa de um senhor que é obcecado com livros de cavalaria, e sai pelo mundo querendo enfrentar o mal. Mas, no caso do Cascavel, ele assistiu a todos os filmes de ação dos anos 1980, e juntei aí a nostalgia da minha infância assistindo a esses longas.
Como funciona o seu processo criativo? Como cria seus personagens e histórias?
Eu já testei vários métodos, hoje eu planejo tudo. Eu planejo até o planejamento. Meus caderninhos abarrotados de ideias são transcritos para arquivos de ideias, que passam para gráficos e mind maps de personagens, capítulos, conceitos. Quando eu sento para escrever, eu quase que transcrevo o que já tenho planejado. Quanto aos personagens, não raro são “monstros de Frankenstein” de combinações de diversas pessoas, amigos e conhecidos.
Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida?
Eu acho que sempre fui um contador de histórias, nem que fosse como criança inventando-as para mim mesmo. Eu acho que todos são contadores de histórias, até a aparentemente mais entediante das pessoas tem narrativas incríveis na cabeça. O escritor é só aquele que se dá ao trabalho chato de transformar esses mundos pessoais em algo que possa interessar a outras pessoas também.
Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinho todos os problemas surgidos durante o processo?
Uma combinação das duas coisas. Sou democrático no levantamento de ideias, tenho amigos nos quais confio muito e vira e mexe tenho longos debates com eles. Mas às vezes acabo sendo ditatorial na hora de fechar a versão que vai ao livro. Você precisa ir mesmo contra as opiniões dos outros, se não soa verdadeiro para você, caso contrário aquela seria a história dos outros e não a sua.
O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso de novos leitores e de novos escritores na literatura?
Facilita e muito. Uma coisa que muitos criticam é que “hoje qualquer um pode ter um livro”, que era exatamente a mesma crítica de quando veio a prensa de Gutenberg. Claro que temos um volume muito maior de autores chamando a atenção do público e é preciso sempre buscar formas da sua história ser lida. Mas acredito que a possibilidade de ser ouvido está lá mais do que nunca.
Na sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?
Eu não acho que seja difícil ser escritor no Brasil, basta você saber escrever. Se você quer só escrever ficção para ganhar a vida, aí realmente vira um problemão. Eu acho que muitos colegas autores buscam uma saída fácil, lançar um livro que exploda ao invés do trabalho de formiguinha de escrita e divulgação constante a vida inteira. Claro que eu quero cada vez mais poder ser apenas ficcionista e se um livro meu fizer muito sucesso, tanto melhor, terei mais tempo para me dedicar à ficção. Mas, no final, ser escritor é quem escreve e é um ofício que funciona muito bem como segunda ocupação além da sua “vida real”. Só depende de você e de se sentar na cadeira para escrever.
Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?
Na falta de experiência própria de carreira literária, repasso a sugestão do Neil Gaiman: escreva, termine o que você escreve, escreva de novo.
Quais são os seus planos para o futuro?
Estou escrevendo uma série Cyberpunk ambientada em um futuro no qual – Deus nos proteja – o Brasil se tornou uma potência mundial. Acabando essa série, chamada Cybersampa, vou passar para a próxima história e para a próxima. Eu sinto que tenho mais ideias de histórias do que teria tempo de vida para escrevê-las.