Entrevista a Laís Raquel Medeiros

Laís Raquel Medeiros é autora de Cuore nello zucchero e @frodite.com e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

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Laís Raquel MedeirosComo se descobriu escritora?

Desde pequena o que eu escrevia chamava atenção das pessoas e eu me sentia mais importante assim. Escrevia cartas para parentes que moravam longe e recebia respostas emocionadas. As minhas redações eram mencionadas por professores e eu tinha uma imaginação capaz de transformar um simples quintal em uma grande floresta com muitas aventuras. Aos doze anos tive uma crônica publicada num jornal da minha cidade e mesmo trabalhando anos depois em lugares burocráticos era sempre a requisitada para escrever os ofícios ou fazer os relatórios. Porém, o que me fez acreditar que me tornaria uma escritora foi uma mensagem veiculada por meio da televisão.

Eu já havia escrito duas peças teatrais que foram selecionadas em concursos de dramaturgia, mas na época estava desempregada e um pouco sem rumo. Assistindo ao programa “Mais Você”, da Ana Maria Braga, escutei uma daquelas mensagens do início do programa e o que a apresentadora falou me atingiu profundamente. Percebi que tinha que fazer algo que me deixasse feliz e não me tirasse a liberdade de ser eu mesma.  No dia seguinte comecei meu primeiro livro.

Qual é a sua principal inspiração?

Acredito que não exista uma inspiração principal. Ela pode vir de uma música, de um sentimento, de uma recordação, de uma imagem ou das manifestações da natureza.

Sua profissão ou o lugar de onde veio tiveram alguma influência em seus temas e em seu modo de escrever?

Toda pessoa assimila algo do lugar em que vive ou do seu trabalho e de certa forma repassa essa influência no que escreve. No meu caso acredito que não posso atribuir necessariamente à região em que nasci ou às profissões que exerci como fruto do que escrevo. Eu diria que são muito mais pelas minhas vivências ou pela observação da vida de outros, além de, é claro, de lugares com os quais eu mais me identifico. 

Quais são as suas principais referências literárias?

São tantas; elas mudam com o tempo. Na infância eu devorei a coleção de Monteiro Lobato e Júlio Verne. Na juventude eu li Jorge Amado, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e todos os livros impostos pelo currículo escolar (autores nacionais e internacionais). Tive a época de querer ler todos os Best Sellers sem me preocupar tanto com a qualidade. Houve também o tempo dos romances policias de Ágatha Christie.

Atualmente minhas referências são Clarice Lispector, Cecília Meireles, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende e Marcel Proust; embora outros autores possuam clássicos que adoro reler, como Milan Kundera, William Shakespeare, Gustave Flaubert, José Saramago, Fiódor Distoiévski, Virginia Woolf e Eça de Queiroz possuem clássicos que adoro reler.

Qual é o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Um muito marcante para mim é A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Eu poderia falar desse livro sob muitos aspectos, inclusive a respeito da complexidade dos personagens, que nos fazem imaginar que cada um nós carrega uma dose de cada um deles. Mas basta olhar para o título que já somos atingidos por muitas reflexões. Como o próprio livro diz:A contradição pesada/leve é a mais misteriosa e mais ambígua de todas as contradições.

Como funciona o seu processo criativo? Como cria seus personagens e histórias?

Eu diria que inicialmente é confuso, mas depois organizado. Quando tenho uma inspiração ou uma ideia para escrever qualquer coisa, anoto uma palavra-chave e então mentalmente vou criando situações, lembrando coisas e sentimentos até levar para o papel. Somente quando inicio o processo propriamente dito é que me organizo de forma a não perder o foco. Quanto aos personagens, são frutos de pessoas que observo no cotidiano e que são alimentadas pela minha imaginação. 

Em que se tornar uma contadora de histórias modificou a sua vida?

Não modificou no sentido material, mas é muito gratificante ver as pessoas falando daquilo que você escreveu. Isso me impulsiona a continuar. Costumo dizer que ser escritor é viver como uma parideira compulsiva”, pois no fim de um projeto já existe a concepção de outro. 

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinha todos os problemas surgidos durante o processo?

É uma caminhada solitária para mim, mas gosto porque me sinto livre. No fim, tudo o que você fizer vai agradar a muitos, ainda que também desagrade a outros. 

 O advento da internet facilita ou atrapalha os novos leitores e escritores na literatura?

Acredito que as duas coisas. Hoje a velocidade das informações faz com que as pessoas assimilem tudo muito superficialmente, além de ser muito fácil uma manipulação de opinião. Há também uma confusão generalizada no que se refere à autoria das obras literárias. O lado positivo é que o escritor na internet tem maior visibilidade e maior possibilidade de interagir com os leitores e editores sem sair de casa. Os escritores precisam de muitos seguidores, assim como qualquer artista precisa sair do ostracismo. Talvez se Van Gogh tivesse nascido nesta era tecnológica conseguisse vender seus quadros em vida. De qualquer forma, a Internet faz parte do nosso dia a dia. Não se pode ignorar ou tentar combater. Precisamos adequar de forma positiva e tirar proveito de tudo aquilo que nos oferece.  

Na sua opinião, qual é a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

Ser capaz de sobreviver apenas como escritor é uma delas. Há outros fatores também que prejudicam a classe. Ainda é preciso estimular o hábito de leitura no Brasil e isto não significa necessariamente aumentar o consumo de livros. É algo complexo, cultural e que começa dentro de casa, atinge as escolas e também o contexto político. Por último, também existe aquele velho ditado: “santo de casa não faz milagre!” Quando vivi na Itália e tinha a oportunidade de falar que eu era escritora, as pessoas se encantavam, queriam saber tudo e sentiam-se honradas em conhecer alguém com esta profissão; mas aqui não posso dizer o mesmo, pois a ideia inicial é de que se trata de um hobby. Ser escritor no Brasil significa fazer parte da elite literária, como estar na Academia Brasileira de Letras ou possuir milhares de livros vendidos.

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Ler muito. Procurar resenhas e resumos apenas como uma orientação. É importante embarcar na leitura para ter sua própria opinião, adquirir conhecimentos e questionar os posicionamentos. Colocar sua alma na escrita é outra coisa importante, independente do que vão pensar as pessoas. Podemos ter um estilo parecido com algum escritor, mas nossa escrita será única como uma impressão digital. 

Quais são os seus planos para o futuro?

Estou terminando a tradução do meu livro Cuore Nello Zucchero para o italiano e verei com a editora o meio mais viável de fazer um lançamento na Itália em 2017. Quero também publicar as minhas peças teatrais. Pretendo continuar escrevendo e aprimorar os meus blogs (Amora Mineira e Brasit),  que é uma maneira mais informal e interativa de comunicação com os leitores. Logo após a Bienal iniciarei meu projeto de um livro de contos.