Entrevista a Luciane Castro

Luciane Castro é responsável pelo blog Futebol para meninas do site do jornal Lance! e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

Confira nossa programação.

 

Luciane CastroComo se descobriu jornalista especializada em futebol feminino?
Na verdade, foi uma sugestão do editor do Portal OleOle, o jornalista Maurício Teixeira. Eu mantinha uma série de blogs nesse portal, todos voltados ao futebol. Então, ele me deu esse toque. Não havia blogs com conteúdo atualizado sobre a modalidade. Fui pesquisar e, de fato, o que encontrei eram espaços com informações bem esporádicas. A partir de então, comecei a falar sobre e, obviamente, fui picada pelo bichinho do futebol feminino. Inevitável não abraçar o futebol das mulheres e começar a ajudar na visibilidade delas.
Qual a sua principal inspiração?
Pessoas. As pessoas me inspiram, tanto para o mal quanto para o bem. Resenhei muita coisa com base na observação das pessoas no metrô, no trem, nos coletivos em geral. Aliás, esses são os espaços que me fornecem um leque bem interessante de resenhas. Sou – sempre fui – muito curiosa, e ouvir as pessoas e suas histórias é algo fundamental pra mim.
Quais as suas principais referências literárias e esportivas? 
Dostoievski entre os clássicos, Hunter Thompson entre os mais, digamos, ousados e Pedro Juan Gutierrez entre os mais ácidos. No esporte, minha principal e mais elementar referência é Dr. Sócrates.
Qual o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?
Memórias do subsolo. É uma obra importante pelo modo como Dostoiévski coloca no papel tudo o que era de mais perturbador em sua mente. É uma obra que exige atenção, que te faz questionar, que te coloca na mente do autor. Uma das obras mais impressionantes que li. Mas também considero O rei de Havana, de Pedro Juan, uma obra muito interessante e da qual não me esqueço em razão do elemento “esperança”, que nos permeia o tempo todo.
Como funciona o seu processo de produção?
É meio caótico. Eu sempre preciso de links. Não basta pegar um fato ou uma ideia e colocá-los no papel. Quase sempre preciso relacioná-los com algo, como música, cinema, uma passagem de um livro, um fato político marcante. E, por essa razão, muitas vezes me pego em bloqueio, até encontrar esse link. Depois que o encontro, tudo flui.
No que cobrir o futebol feminino modificou a sua vida?
Modificou especialmente no que diz respeito às relações de confiança. Por ser uma modalidade carente, por assim dizer, conquistei a confiança de muitas atletas e ex-atletas. São mulheres que se veem muitas vezes inseridas em ambientes opressivos, com muito assédio, e elas estão lá apenas tentando fazer o que mais amam na vida. Quando alguém aparece para ajudar a defender o que lhes é de direito, ocorre uma empatia. E isso foi, entre tantas outras coisas boas e importantes nessa caminhada, a mais importante para mim.
Conversa com alguém sobre uma matéria que esteja desenvolvendo no decorrer do processo ou prefere resolver sozinha todos os problemas surgidos ao longo do caminho?
Normalmente gosto de resolver sozinha. Se há algo que definitivamente foge à minha capacidade de resolver ou mesmo buscar soluções, aí, então, recorro a alguém.
O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso na literatura e no jornalismo esportivo, diante do crescimento tanto de novos leitores quanto de novos escritores e colunistas?
Penso que facilita e bastante! Antes da internet, a possibilidade de ser lida era muito reduzida. Dependeria de coisas que hoje a internet facilita. Alguns dos meus trabalhos mais importantes, consegui em razão de alguém que me encontrou através do blog.
Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor e jornalista no Brasil?
Acredito que a maior dificuldade de se viver disso é que ainda não temos uma cultura de leitura. O mundo está dinâmico. As pessoas querem a síntese ou as imagens de algo. Se aprofundar, ser mais analítico e segurar a atenção das pessoas através de um livro ou de um artigo mais complexo exige, sobretudo, dom de quem está disposto e gosta de escrever. Exige mais ainda que os leitores se interessem em ampliar seu vocabulário e busquem melhorar a interpretação de texto. 
Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira do jornalismo esportivo? Em especial do futebol feminino?
Minha única e mais valiosa dica é: façam o que amam! Pode ser que não dê os recursos financeiros esperados, mas sem dúvida é um caminho de realização. Cobrir futebol feminino, definitivamente, ainda não dá dinheiro, mas é um exercício e tanto de paciência!
Quais os planos para o futuro?
O plano para o futuro mais próximo é o livro sobre o futebol feminino na Olimpíada. Para o ano que vem, tenho alguns projetos caminhando com o Sesc na área do audiovisual e uma publicação comemorativa. Minha ideia de vida para daqui por diante é lidar com a história do futebol feminino, mais do que trabalhar apurando os problemas e dificuldades que a modalidade sempre viveu e ainda vive.