Entrevista a Marina Ivo de Araújo Lima

Marina Ivo de Araújo Lima é autora de O menino com um buraco na barriga e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

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Marina Ivo de Araújo LimaComo se descobriu escritora?

Ainda estou me descobrindo escritora e acho que o caminho é longo. Escrever, no entanto, sempre esteve presente na minha vida, é algo que exercito constantemente, o meu trabalho e meu hobby.

Qual é a sua principal inspiração?

Minha principal inspiração são as minhas relações familiares, amorosas e de amizade. As pessoas que estão a minha volta dão sentido a minha vida. Suas questões, histórias, alegrias, tristezas: tudo isso colore meu mundo, meu pensamento. São laços muito fortes, muito profundos que me tornam uma pessoa melhor, alargam minha experiência, fazem meus olhos enxergarem de uma forma diferente, meu coração bater em outros corpos. Não poderia escrever se estivesse presa em uma bolha.

Quais são as suas principais referências literárias?

São muitas. Gosto de livros desde o meu início. E tenho fases. Tinha uma época em que estava estudando espanhol e lia tudo nessa língua: Federico García Lorca, Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, Mario Vargas Llosa, Isabel Allende, Pablo Neruda. Tenho verdadeira adoração pela língua espanhola. Acho linda! Tive um momento literatura russa: li Tolstói, Dostoiévski, mas nunca consegui terminar Crime e Castigo. Fico tão angustiada que simplesmente largo o livro. Amo também a literatura portuguesa e brasileira. Clarice Lispector me inspirou durante muito tempo e me inspira até hoje. Nos últimos anos me debrucei nos gregos. Fiz grupos de estudos com uma grande amiga que abriu um mundo novo para mim. Lemos a Odisseia e a Ilíada e acho que foi uma das coisas mais impressionantes que já li. A tragédia de Antígona também está entre as minhas preferidas.

Qual é o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Não sou capaz de eleger um livro mais marcante, mas os primeiros que me vêm à cabeça são: Odisséia de Homero, Anna Kariênina de Liev Tolstói, Jane Eyre de Charlotte Brontë e De amor e trevas de Amós Oz. Esses livros são importantes para mim porque me trouxeram frases que eu sempre quis dizer, mas nunca fui capaz. É um momento mágico ler algo que parece que sempre foi seu.

Como funciona o seu processo criativo? Como cria seus personagens e histórias?

Fico ruminando uma história ou poema durante meses. Fico pensando sobre, faço anotações em cadernos, pesquiso sobre o tema. Até que um dia decido sentar para escrever no computador e a história, muitas vezes, chega completamente diferente de como estava na minha cabeça. Gosto de escrever durante a natação. Escrevi um poema inteiro nadando de um lado para o outro. Ficava um pouco tensa de esquecer, mas cada vez que nadava surgia uma nova ideia e comecei a curtir muito o processo, me divertir. Quando cheguei em casa consegui escrever tudo do jeito que havia pensado.

Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida?

A publicação do meu livro infantil O menino com um buraco na barriga mexeu muito comigo. Bagunçou completamente a minha vida, mas de uma forma muito positiva. A resposta das crianças foi muito gratificante, fui a colégios aqui no Rio de Janeiro e também em São Luis do Maranhão e as crianças fizeram perguntas que me desconcertaram, observações que me tocaram profundamente. E ainda ganhei muitos abraços, sorrisos. Descobri que era isso que eu queria. E foi um caminho sem volta. Decidi me aprofundar na literatura, que sempre foi a minha paixão. Estou cursando o mestrado em literatura na PUC-Rio.

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinha todos os problemas surgidos durante o processo?

Depende. Quando escrevo poemas, dificilmente converso com alguém. Normalmente, ele é um processo de escrita solitário. No caso da história infantil O menino com um buraco na barriga, conversei com uma amiga muito querida quando o livro era ainda uma ideia, a história nem estava pronta. Acho que cada processo é único e se apresenta de maneira diferente.

O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso de novos leitores e de novos escritores na literatura?

Acho que não há mais espaço para este tipo de questionamento. A internet simplesmente é. Sei que há várias ferramentas nas quais o escritor pode compartilhar o seu processo criativo e isso impulsiona muitas publicações. A facilidade de encontrar e-books na rede também é incrível. Mas confesso que, nesse sentido, eu ainda estou parada no tempo. O meu computador é minha máquina de escrever e detesto ler livros em tela. Preciso de papel. Mas tenho amigos que só leem em tablets.

Na sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

Acho que ser escritor é difícil em qualquer lugar. É um processo solitário, que exige muita dedicação, mas é muito prazeroso também. Quando estou escrevendo e entro no ritmo, começo a me emocionar, rir, leio em voz alta. É um momento incomparável.

Mas a maior dificuldade mesmo é aquela velha questão: Como viver disso? Ganhar dinheiro escrevendo livro? Na minha opinião, sempre será necessário realizar trabalhos paralelos que promovam o seu sustento e enriqueçam o seu processo criativo.

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Também estou precisando de dicas (risos). Sou uma estreante, mas algo que aprendi com a publicação do meu livro foi que não basta escrever, é preciso empreender. Depois que a história do meu livro estava pronta, chamei uma amiga para ilustrar, outra para diagramar e fiz um projeto de livro para entregar para várias editoras. Foi um processo árduo até conseguir fazer o livro acontecer de verdade.

 Quais são os seus planos para o futuro?

Continuar estudando literatura, depois do mestrado quero fazer o doutorado também. Em paralelo, sempre estou em grupos de estudos. O próximo é sobre Dom Quixote, que começa agora em setembro. E já estou escrevendo meu próximo livro.