Entrevista a Mustafá Ali Kanso

Mustafá Ali Kanso é autor de A cor da tempestade e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

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Mustafá Ali KansoComo se descobriu escritor?

Fui participar das “Oficinas de Literatura” e “Roteiro”, de André Carneiro, por conta das minhas atividades profissionais. Por incentivo do próprio André Carneiro me inscrevi em um concurso nacional de contos e ganhei, nessa mesma edição, o primeiro e o sexto lugar. A partir daí comecei a receber convites de editoras para participar de antologias e para escrever em portais.

Qual a sua principal inspiração?

Escrevo principalmente sobre o ser humano, usando do elemento fantástico como pretexto para discorrer sobre suas idiossincrasias, sonhos, possibilidades e limitações — logo, minha principal fonte de inspirações é a própria vida.

Sua profissão ou o lugar de onde veio tiveram alguma influência em seus temas e em seu modo de escrever?

Sou bacharel em Química, licenciado em Ciências e engenheiro químico. Tenho mestrado em Engenharia de Produção (Mídia e Conhecimento) e também atuo como educador lecionando para o ensino médio e para pós-graduação. Consequentemente, toda essa ilustração acaba interferindo na forma com que eu vejo e me relaciono com o mundo, por isso muitas vezes seu impacto naquilo que escrevo é determinante. Muito do que eu escrevo, aliás, tem como pano de fundo a ciência e a tecnologia, ainda que sem me distanciar muito da dimensão humana, que a meu ver, é o que torna esses temas apaixonantes.

A minha cidade pouco interfere na minha produção, apesar de a minha descendência árabe por parte de pai e alemã por parte de mãe ter contribuído na construção de personagens e também na de narrativas.

Quais as suas principais referências literárias?

Principalmente a literatura fantástica. Sou cativo da literatura de Lygia Fagundes Telles, André Carneiro, Gabriel García Marques, Ray Bradbury, Herman Hesse e Jorge Luis Borges, apenas para citar alguns.Não me furto, no entanto, à literatura de entretenimento ou às principais correntes literárias ditas eruditas; posso dizer que leio de tudo. Do histriônico ao sisudo. Do popular ao acadêmico.  Não consigo me imaginar sem ter um livro em mãos.

Qual o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante? 

É difícil eleger apenas um livro, dos tantos que li e amo até hoje e pelos quais nutro uma saudável inveja literária. Posso citar Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marques, e Frutos Dourados do Sol, de Ray Bradbury, pela escrita poética. Também Máquina de Hieronymus, de André Carneiro, e Seminário dos Ratos de Lygia Fagundes Telles — pelo contraponto entre o real e o fantástico. É uma injustiça deter-me aqui, com tantos outros que me impactaram em cada uma das fases da minha vida.

Como funciona o seu processo criativo, como cria seus personagens e histórias? 

Existem várias técnicas que utilizo. Para não me alongar muito, vou citar apenas uma. Geralmente a peça literária surge de um motivo condutor. Uma questão a ser respondida. Por exemplo, na criação do roteiro da peça teatral Nave dos Insensatos, que foi encenada recentemente em Curitiba, o primeiro passo foi imaginar um navio navegando em círculos como uma alegoria da vida ou do destino de um país. A partir desse fato insólito se construíram os demais aspectos da trama: por que navega em círculos? Quais são os heterogêneos da tripulação responsáveis por esse comportamento? E assim por diante. Como a literatura é uma forma de expressão, eu me pergunto nesse motivo condutor: o que eu gostaria de comunicar ao meu leitor? Qual é a essência do que eu quero contar? Esse ponto é central. Mas, como disse, essa é apenas uma das técnicas. Existem outras.

Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida? 

Principalmente no aprimoramento pessoal.  E essa a modificação se dá todos os dias.Por exemplo, à medida que eu vou escrevendo um texto (e revisando e revisando), até a sua publicação, esse texto vai me escrevendo também. Vai me transformando em uma pessoa mais disciplinada, mais focada, mais comprometida, contribuindo para a construção dessa reflexão diária que muitos denominam como autoconhecimento. É dialético: o escritor cria a obra. Da mesma forma, é também a obra que cria o escritor. A literatura faz com que eu não termine em mim mesmo, provoca um extravasamento das minhas bordas e uma ultrapassagem dos meus limites,  pois o alcance que um livro nos dá é imenso. Apenas para ilustrar essa ideia: tenho recebido e-mails de diversos lugares que eu não tinha noção de que falavam português.  São apreciações sobre minhas histórias que me surpreendem, comovem e, ao mesmo tempo, me estimulam. É o carinho desse leitor dedicado que torna tudo possível. 

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinho todos os problemas surgidos durante o processo? 

As duas coisas. Existem textos que apresento para um público alfa e beta para receber um feedback, algo que costumeiramente fazemos em nossas oficinas de literatura. No entanto, existem outros textos que navegam sozinhos desde sua criação até a publicação. Depende muito do texto e do prazo que tenho para publicá-lo. 

O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso na literatura, tanto de novos leitores quanto de novos escritores?

Facilita e muito. Tenho um contato muito próximo com o meu público e isso ajuda a me dar forças, por exemplo, para continuar espancando o teclado do meu PC enquanto todos estão na praia. Escrever às vezes é solitário. Essa possibilidade de conexão fornecida pela Internet é simplesmente fantástica e tende a aplacar essa solidão, ao interconectá-lo com pessoas de seu planeta: gente que gosta de ler e gosta de escrever e entende o que você enfrenta todos os dias. É aí que ocorre o despertar de vocações. Em meu grupo de literatura existem escritores que se aproximaram da escrita lendo os meus livros. Isso é muito estimulante. Se acontece comigo, penso que acontece também com outros escritores. A internet também facilita, em muito, a pesquisa, o estudo das técnicas literárias, o acesso a livros gratuitos, a manuais e dicionários de nossa língua mãe e assim por diante.

Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

Penso que é a questão econômica. Para que existam escritores precisamos de leitores.

Em nosso país, infelizmente, a maior parte da população brasileira luta pela sobrevivência. Depois de enfrentar uma dura jornada de trabalho, atravessar a cidade em coletivos lotados num trânsito infernal, quem estará fisicamente disposto para ler? Mesmo assim, consigo ver nos ônibus e metrôs alguns heróis com livros em mãos.  Muitos desses livros emprestados de amigos, parentes ou de bibliotecas públicas, ou quando muito, comprados em sebos. Em minha cidade estão dispondo livros de doações nos terminais de embarque do transporte público. Mas penso que é um simples paliativo. O problema é muito maior. A literatura e a arte de modo geral são o pão do espírito. Como oferecê-lo, em sã consciência, se muitos ainda não possuem, sequer, o acesso ao pão do corpo? É uma pergunta para se pensar.

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Leia bastante. Leia muito. Leia de tudo. Nunca saberemos o que é qualidade literária se não formos, antes de qualquer coisa, leitores.

Quais os planos para o futuro?

Tenho outros livros na fase de revisão, mais uma peça teatral encomendada e um roteiro de quadrinhos em gestação. Para o futuro estou planejando muitas festas de lançamento — estão todos convidados.