Entrevista a Santa Rosa

Santa Rosa é autora de Caçadores de planetas: a última resistência e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

Confira nossa programação.


Santa RosaComo se descobriu escritora?

Realmente não sei como dizer se sou escritora ou não. Acho que não existe isso, acho que todos podem escrever, todos podem criar, uns mais que os outros por questão de hábito, quanto mais você lê, mais coisas terá para contar. Eu leio tudo, jornal, Facebook, vejo cada coisa incrível, cada notícia […] procuro usar tudo que leio e vejo, mas isso todos nós podemos fazer.

Qual é a sua principal inspiração?

Eu adoro meio ambiente, mas também adoro essa coisa de viagem no tempo, de vida além da morte, de possibilidade de outras vidas em outros planetas […] diante disso tudo é que eu percebo o quanto nós somos pequenos. Acredito que somos os seres mais primitivos entre os outros seres que habitam os outros planetas e, isso me traz arrepios, pois, imagino quando nós teremos a oportunidade de conhecê-los, será que estaremos preparados?

Sua profissão ou o lugar de onde veio tiveram alguma influência em seus temas e em seu modo de escrever?

Eu adoro ler. Tenho dois trabalhos e, em ambos, leio o tempo inteiro, sempre estou no meio de pequenos adolescentes, o que me influencia muito a escrever para este universo. Na verdade, eu vejo os meus filhos jogando videogames e adoro. Sempre antes dos jogos existe uma pequena história para iniciar e sempre eles me chamam. Antigamente era para traduzir algum detalhe, mas hoje já não existe isso e, geralmente quando o meu filho me chama é mesmo para assistirmos juntos. Aliás, nós adoramos assistir filmes juntos, cada um com suas namoradas ou seus namorados e eu com o meu marido, é muito divertido.

Então eu vivo esse universo dentro de casa, cheio de magia, mas adoro ficção e tento unir tudo: magia, ficção e até religião. Alguns jogos envolvem crenças e tudo vai se juntando… eu tento trazer um pouco disso tudo e ao mesmo tempo tento introduzir algumas questões como religião, meio ambiente e até política, pois, sinto que é nosso papel tentar entusiasmar os jovens na esperança de que algumas atitudes possam melhorar.

Não gosto apenas de falar de coisas ruins, essas eu acredito que não precisamos mencionar, aliás, nós já vivemos isso tudo no nosso dia a dia nas ruas, nas escolas. A violência, a pobreza, o preconceito, tudo isso já conhecemos bem, acho que não precisamos ler mais a respeito disso, então eu procuro falar de coisas mais além, eu olho para todos e vejo uma coisa só, somos todos, não importa o continente ou a nação, ou qualquer outra coisa, somos todos de uma única espécie e vivemos todos na mesma casa, ou seja, a Terra e, acho que precisamos mais falar a respeito dela. O que estamos fazendo com a nossa casa? Eu quero tentar mudar um pouquinho o rumo que estamos tomando, são pequenas atitudes que podem modificar o mundo.

Quais são as suas principais referências literárias?

Tenho muitas referências, mas hoje, posso dizer que tenho me interessado muito por alguns autores bem diferentes do que eu me interessava. Há dez anos atrás eu tinha uma fixação em Allan Poe, sempre adorei a forma com que ele conduzia suas obras, era tudo muito obscuro e sinistro, bem perturbador. Na verdade, as obras que costumamos ver de terror sempre é algo que está fora, já em Allan Poe é um terror interiorizado. Ler Allan Poe nos conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero. São sempre visões antagônicas e muito fortes. Acho que depois de tantas leituras fortes, cheguei a conclusão que cansa. Eu amo, de fato, mas isso já está tão presente em nosso dia a dia, são tantos casos que estamos assistindo ao vivo e a cores bem pior do que os contos de Poe.

Hoje prefiro ler tudo isso de outra forma, de uma forma mais light, então parti para a ficção. Adoro filmes de ficção para adolescentes que tragam mensagens embutidas, tipo Jogos vorazes. Na verdade, logo que surgiu o primeiro, achei muito estranho um reality-show de adolescentes se matando, mas minha filha havia lido o livro e me convenceu que a história era boa e então fui ao cinema com ela e realmente gostei. Vi muitas coisas reais e possíveis e comecei a me interessar pela história, confesso que no último filme eu já me identifiquei totalmente com a história, a disputa de poder me surpreendeu. Aliás, ficou nítida a manipulação para modificar as peças do jogo e transmitir a sensação ao povo de que algo mudou quando na verdade tudo permaneceu como era antes, é exatamente o que hoje nós vivemos aqui no Brasil, ou seja, “às vezes é preciso mudar para continuar como está”.

Qual é o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Os miseráveis, porque o livro era enorme e eu lia todas às noites com o meu filho pequeno ao lado. Ele só tinha uns 10 anos e ficava irritado com todas as dificuldades que o personagem principal passava no livro, sempre que ele conseguia superar algum obstáculo acabava acontecendo um outro pior ainda. Aí o meu filho ficava triste e dizia: “não é possível, esse homem só sofre…”. Enfim, ele ficava triste, mas quando chegava o dia seguinte em que meu filho, Pedro, me via lendo na cama, lá vinha ele novamente e pedia para que eu lesse em voz alta para ele ouvir. Foi muito legal, li o livro inteiro assim, com ele ao meu lado. Aliás, esse meu filho, Pedro, escreve muito bem e na escola, ainda pequeno, fez uma fábula que foi escolhida para participar de um livro. Até hoje ele me ajuda quando eu escrevo, ele participa sempre das minhas aventuras e eu das dele.

Como funciona o seu processo criativo? Como cria seus personagens e histórias?

Eu sempre procuro alguém real e crio o meu personagem a partir desse alguém. A minha casa sempre está cheia de jovens, meus filhos trazem muitos amigos, foram várias gerações que frequentaram e ainda frequentam a minha casa. Alguns deles hoje estão se formando ou já se formaram, outros que estão entrando na faculdade agora e, outros que ainda estão no Ensino Fundamental. Então, posso dizer que possuo muitos personagens para criar observando essa galerinha.

Em que se tornar uma contadora de histórias modificou a sua vida?

Eu nunca me conheci antes sem contar histórias. Acho que desde pequena eu já criava várias histórias, contava até para as minhas bonecas, quando não falava sozinha. Bom, sempre gostei de escrever, então acho que já nasci assim, já nasci modificada, eu acho.

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinha todos os problemas surgidos durante o processo?

Converso o tempo inteiro com os meus filhos, principalmente o Pedro, ele é cheio de ideias e conta cada história […] tudo que ele me conta acaba virando livro. Ele possui uma imaginação […] já a minha filha também escreve muito bem, porém, ela não participa tanto quanto o Pedro, acho que ela é mais séria e mais realista, enquanto eu e o Pedro somos mais sonhadores. O meu marido também participa muito, ele é meio sonhador também, mas, ele apenas lê e diz se achou legal ou não, não é tão ativo quanto o Pedro.

O advento da internet facilita ou atrapalha os novos leitores e escritores na literatura?

A internet é maravilhosa, eu viajo por lugares onde não poderia ir de forma alguma. O mais interessante é que eu conheço ruas, praças, cidades, enfim, eu viajo por todo o planeta sem sair do meu quarto. Nessas viagens eu conheço um pouquinho de cada cultura, vejo algumas tradições locais, ando até pelas ruas como se fosse um pedestre normal, acho um barato. Óbvio que é muito importante para as pessoas que gostam de escrever, para mim é fundamental e, para os leitores é tudo. Permite-nos viajarmos juntos num universo totalmente novo como se já fôssemos velhos conhecidos, pois, é possível conhecer cada detalhe de lugares por onde nunca passamos.

Na sua opinião, qual é a maior dificuldade em ser escritora no Brasil?

Eu nunca tentei mostrar para ninguém, além da minha família, o que escrevo. Acho que estou fora deste universo, não faço a mínima ideia dos obstáculos que existem para um escritor no Brasil ou fora dele. Eu quero escrever porque eu amo e, é missão de todos tentar fazer algo para melhorar o mundo onde vivemos, tentar passar de uma forma light algo que possa ajudar a modificar um pouco o nosso planeta, fico muito preocupada com o rumo da nossa espécie e, acredito que cada um de nós pode fazer um pouquinho para tentar mudar.

Por isso, acredito que os adolescentes precisam de aventura, ação, ficção, magia, etc. Definitivamente não penso nas dificuldades e se elas aparecerem não me farão desistir de tentar fazer a minha parte, acho que todos deveriam pensar da mesma forma, ou seja, esquecer que existem obstáculos e pensar somente nas mensagens que devemos deixar para ajudar na construção de um mundo melhor.

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Na verdade, a única dica é “fé”, se você acredita que pode ajudar para melhorar essa juventude, não pense duas vezes, faça. Depois é só ter “fé” que você chega lá. Acredite!

Quais são os seus planos para o futuro?

Eu já tenho dois livros para continuar a trilogia e tenho mais três outros livros distintos e que não possuem relação com a trilogia.