Há tempos o compositor Luciano Garcez vem tecendo o cuidadoso fio de sua teia estética, captando e capturando nela aquilo que a Canção Popular Brasileira tem de “exceção”. Por “exceção” não se deve entender o objeto que se exclui porque original, mas que se insere e fecunda a tradição e o novo justamente por conta de sua enorme vitalidade de significados. Assim, mais do que criar, pretende-se extrair do Tempo uma “multiplicanção”: aquela que expressa a plenitude da tensão entre a palavra / melodia / harmonia / rítmica e etc. E o desmonte de, e o observar o, e o reler a, e etc. Ir até o morro buscando a Ode grega – sair do quintal da Tia Ciata assobiando Schoenberg – dissolver a Bossa-Nova em ruptas moléculas de punk rock – fazer o cordel se agalopar em infinitos megapixels – Schubert a esta hora há de estar tomando uma água de coco nas nuvens com o tranquilo Dorival…

Em “You´re the Trickster”, espelho de todos os olhares, lança-se mão – na concepção toda do show – de recursos cênicos, hiper-referentes e mitopoéticos, não como o prolongamento artificioso da idéia de “canção”, mas como um braço, uma voz dentro da voz dizendo mais sobre si. Há a presença de uma atriz como objeto multisimbólico, uma “desmusa” de nomes vários, se transmutando constantemente e tornando assim o show uma grande “linguagem” inclusiva, onde há a interação sutil entre palco e platéia, demonstração e expectativa, mensagem e receptor.

Título emprestado de um arquétipo do herói presente em várias culturas, o “Trickster” é aquele que atua com diversas máscaras e posturas, sendo mutante por excelência e instaurador do caos para que uma ordem posterior, e nova, prevaleça. Assim, de posse deste “modus ludens artístico”, pretende-se um questionamento lúdico do fazer e representar a MPB nos dias de hoje, tomando como tema fundante a sociedade contemporânea e seus protagonistas, sejam eles proeminentes ou desconhecidos, mas, sobretudo, abolindo de um golpe a tendência decorativa, classicizante e inócua da canção brasileira atual, em favor de uma arte atuante – sem a pretensão infantil do engajamento – que penetre a consciência do público e faça dela seu próprio desejo e seu sonho insuspeito. Pois, como advertia Pound, tudo pode soar belíssimo – e não “funcionar”…

Duração: 90 minutos.
Faixa etária: livre.

Nascido em 1972 no ABC paulista, Luciano Garcez é poeta, dramaturgo, compositor, cancionista e maestro. É Mestre em Composição e Poesia pela UNESP e UNIRIO. Seu trabalho de música erudita e popular está distribuído em CDs pelo Brasil e Europa, gravada por diversos intérpretes e selos. Lançou seus livros de poesia Salutz a uma dama moura em 2010; As cidades cediças em 2012; um trabalho inédito e autoral de Heteronímia-em-vida, A mais atada à tua palavra: o caderno de Mariana L, em mãos, seguido de avulsos do poeta B., em 2014; sua sátira-ópera em e-book L´ascension ou o cristal do milagre chinês em 2015, seu drama-lírico Vocalises ou despetalar-se, em 2016, e o segundo livro de seu heterônimo Mariana L, Kleine Faust, em 2017.  Seu CD autoral de canções You are the Trickster foi lançado, também, em 2012 – todos trabalhos elogiados por nomes como Haroldo de Campos, Eduardo Navarro, Augusto de Campos, Claudio Willer, Walter Franco, Florivaldo Menezes, Roberto Bicelli, Guinga, Flo Menezes e José Miguel Wisnik, entre outros. Sua obra, o autor a define como sendo “mitopoética” e “pluridimensional”, na qual “tempos, estilos, épocas e gêneros se misturam com a mesma elegância abstrata dos temas tão difusos que se organizam em uma banca de jornal, ou nas páginas/vaginas de luz e links imantados pela Internet”.