Entrevista a Zeka Sixx

Zeka Sixx é autor de A era de ouro do pornô e estará no estande da Multifoco na Bienal 2016.

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Zeka SixxComo se descobriu escritor?

Desde a época do colégio, quando tinha 11 ou 12 anos, meus professores, pais e amigos sempre me incentivaram, dizendo que eu tinha talento para escrever. Mas acho que só fui me “descobrir” escritor quando comecei a produzir meus primeiros contos de temática adulta, por volta dos 19 anos. Alguns desses contos foram incluídos no meu primeiro livro, O caminho dos excessos, lançado de maneira independente em 2015.

Qual a sua principal inspiração?

Minhas principais inspirações são as coisas que considero essenciais: sexo, bebida e rock ‘n’ roll. Tento escrever histórias que envolvam e agradem os leitores que também apreciam essa tríade sagrada.

Sua profissão ou o lugar de onde veio tiveram alguma influência em seus temas e em seu modo de escrever?

Como sou advogado, nunca percebi qualquer influência de minha profissão nos temas abordados nos meus livros. Já Porto Alegre, cidade onde moro desde os oito anos, influenciou substancialmente meu segundo livro, A era de ouro do pornô, uma vez que o romance é basicamente uma homenagem sincera e ensandecida a essa cidade que amamos odiar e odiamos amar.

Quais as suas principais referências literárias?

Henry Miller, Charles Bukowski, John Fante, Bret Easton Ellis, Pedro Juan Gutiérrez, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Jim Morrison, Anaïs Nin, Lolita Pille, Vladimir Nabokov, James Hadley Chase, Stephen King, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Rubem Fonseca, Zeca Fonseca, Dalton Trevisan. Os rebeldes e transgressores sempre me atraem mais.

Qual o livro mais marcante que já leu e por qual razão o considera tão importante?

Se eu tivesse de citar apenas um, seria Trópico de Câncer, de Henry Miller. Acredito que o livro me marcou não apenas pelo seu espírito transgressor, no que diz respeito ao sexo, mas também pela sua honestidade em retratar a luta de um autor para encontrar sua voz como escritor e a obstinação em acreditar nessa voz, contra tudo e contra todos, como fica claro nesta passagem: “Isto não é um livro. Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza… e do que mais quiserem”.

Como funciona o seu processo criativo, como cria seus personagens e histórias?

Falando especificamente de A era de ouro do pornô, o embrião do livro surgiu há uns três ou quatro anos, quando tive uma ideia de escrever um romance passado em Porto Alegre, sobre um cara, aspirante a escritor, que sobrevivia de furar eventos “boca-livre”. Mais tarde, quando efetivamente decidi sentar para escrever, essa ideia acabou ficando em segundo plano, e o livro acabou sendo o que é: um romance sobre a geração perdida da Porto Alegre do século XXI, vivendo seu último instante de otimismo; uma sátira aos romances eróticos tão em voga hoje em dia; uma fábula pornográfica e maldita. Os personagens e histórias do livro são, em sua quase totalidade, ficcionais: apenas busquei retratar pessoas e situações que efetivamente poderiam ser comuns na Porto Alegre de 2012.

Em que se tornar um contador de histórias modificou a sua vida?

Acredito que modificou no sentido de mostrar que é possível buscar algo que transcenda nossas vidas atarefadas e previsíveis, que podemos dar vazão aos nossos talentos artísticos em vez de passarmos nossa existência buscando novas desculpas para nosso fracasso.

Conversa com alguém sobre o livro no decorrer da escrita ou prefere resolver sozinho todos os problemas surgidos durante o processo?

Gosto de mostrar o trabalho em andamento a algumas pessoas de minha confiança, sim, saber a opinião delas. Mas tenho de confessar: sou muito cabeça dura, geralmente acabo ignorando as sugestões e resolvendo tudo sozinho.

O advento da internet facilita ou atrapalha o ingresso na literatura, tanto de novos leitores quanto de novos escritores?

Acho que ajuda muito na questão envolvendo a divulgação, por causa das redes sociais e dos blogs literários. Mas há um perigo: passar tempo demais na internet e não escrever, tampouco ler literatura.

Em sua opinião, qual a maior dificuldade em ser escritor no Brasil?

Ser lido, uma vez que o brasileiro lê, em média, de um a dois livros por ano, segundo pesquisas.

Alguma dica para quem está pretendendo se lançar na carreira literária?

Vivam intensamente, experimentem tudo o que tiverem vontade. Perdão pelo clichê, mas não há inspiração melhor que a vida. Um amigo meu dizia que todo mundo deveria escrever um livro, porque seria uma forma de obrigar a si mesmo a viver uma vida interessante e inspiradora; caso contrário, o livro seria péssimo. Por fim, busquem sua PRÓPRIA voz, por mais doloroso que seja: não escrevam tentando emular a voz de um autor que vocês admirem, tampouco escrevam pensando em agradar alguém específico (a namorada, os amigos, etc.).

Quais os planos para o futuro?

Meu plano mais imediato é tentar fazer uma versão em quadrinhos de A era de ouro do pornô: uma graphic novel no estilo Robert Crumb ou Milo Manara. Acredito que o resultado seria surpreendente: estou buscando parceiros para essa missão. No futuro, esperar que a vida traga inspiração para um novo livro, de preferência algo bem diferente de tudo o que já produzi. Acho essencial buscar novos desafios, novo estilos, não ficar preso a uma fórmula.